É irrelevante.
depois do Tempo, depois do mundo e da vida.
o prazer que senti e que guardo é lentamente obliterado.
a expectativa suicida-se neste funesto momento finado.
é amargo o sentimento
em que se conquista um lugar solitário,
quando ainda corre amor dentro de mim...
agrilhoado por fim ao espaço vazio sem tempo,
para todo-o-sempre longe de ti.
será que depois da morte ainda há esperança?
...depois da tempestade vem a bonança.
mas para sempre mudança, uma cruel tristeza,
que voa livre, à deriva, ainda que ao sabor do desprezo
preso à memória da nossa gélida incerteza.
é irrelevante,
mas nunca vi musa com tamanha beleza.
atravessando tornados senti o rasgo da leveza,
da arte onírica que é só tua,
no teu característico sopro de devaneio:
degelo puro da pureza, puramente verdadeiro.
e relembro o toque-doce delicado, constantemente dilacerado,
atravessado pela dureza das circunstâncias,
por esse velho vento ingrato.
não há memória de uma escapatória.
ostracizado sem perdão até ao dia inalcançável na história,
até se concretizar novamente toda a improbabilidade vivida.
todo o desejo liberado.
...e tudo o que de errado tornamos certo,
agora tornas novamente em errado.
mas descansa, alma ingénua: não acredito que haja um culpado.
e acredita que até na morte ganho uma vida,
ainda que primordialmente frágil e despida.
e é tão irrelevante como é justo.
pravo, perante isto e perante tudo.
o ser infinito como obstáculo, ser o pária moribundo.
Ser é a eterna espiral cíclica condenada:
viver é a morte ao nosso primeiro segundo.
momento orientado pelas linhas tortas nas quais escreves,
fugaz peregrino, que sempre sem um adeus te despedes.
não quero mais sentir, e não quero mais pensar.
o que me falta é o que procuro, e o que procuro vai sempre faltar.
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