terça-feira, 23 de setembro de 2014

Heliopausa

vejo os risos calcinados
do tempo em que éramos crianças.
inseguras de si, seguras de um futuro dourado.
agora somos só falhanço assegurado.

e eu tinha um caleidoscópio amarelado,
mas nunca o apontei para as estrelas
pois não sabia que era lá que eu habitava
assim como os nutrientes de todo o futuro e passado.

e todo este mistério que se esconde
por entre estes frágeis dedos molhados,
quando conto todas as promessas não desonradas,
e as tentativas que não se revelaram frustradas,
é graciosamente desvelado:

isto é apenas um temporal mesquinho de chuva-morta
que parece cair (para) sempre ao contrario.
e as agulhas do tempo alinham-se quando já não contamos:

finalmente,
todos seremos livres e decapitados.


sexta-feira, 12 de setembro de 2014

erro_404

insomnia

e o gentil gume da morte da tua beleza
não durmo para pensar
no que poderia ser ao acordar
agarrado ao hospício que eleva esta marquesa

tão alto que já não cai

pelo que me parece É indefinidamente perdido
em toda profundeza deste espaço infinito
tão dentro que já não sai

assim como todas as margens que comprimem
o fluxo livre de todas as águas clandestinas


quinta-feira, 29 de maio de 2014

rosa(s).

por tudo o que não foste:
tudo ficou mais calmo agora.
mal me seguro,
mas continuo até te acompanhar
na poeira espacial em que flutuas,
ou no Céu em que te fizeram acreditar.
ou onde quer que Sejas agora
e em todo o lugar que visites ou não em seguida.
às vezes penso que se por negra magia voltasses,
mesmo que através da sombra muda da noite gelada,
eu fazia tudo da mesma forma,
e (sei que) nunca me atreveria a pestanejar:
percorreria novamente todo o clemente rumo da minha vida,
até que à vida a morte me levasse novamente.
assim como tu, muito embora nada disto te comova.
é de recordar que sempre desconheci as razões,
do teu vazio interior, acorrentadas no teu âmago.
e certamente que toda a tua boa-acção
não passou de uma espécie de tentativa de remissão
da velha pena que pagavas por todos os teus pecados.
mas isto agora é indiferente e eu já o deveria saber,
assim como já deveria conseguir acordar sossegado,
mas encontro-me eternamente destinado a relembrar o facto
de não ter escrito para ti algo mais do que o simples nada,
no vazio de emoção em que jaz o teu pesado epitáfio.



[28.05.1919]

sábado, 3 de maio de 2014

pessoa(s).

adoro a tua ternura apática.
banho-me com os excedentes do teu ser
e quase que me divirto.
adoro ver mais uma réplica do que sempre foste,
porque olho através desta minha forma renovada.
eu existo agora apenas deitado no meu banco de jardim molhado,
contando estórias aos meus dedos do pouco que resta dos teus traços.
mas para sempre relembro todo este malicioso resultado viciado,
e aí imagino o teu semblante embrulhado em fina película de celofane,
enquanto sucumbes por entre sujos gritos-afiados.

por outro lado vejo como um todo o que já lá vai,
e tudo me aparece como um guião graciosamente bem-concebido.
nunca tinha vivido num reflexo tão nítido,
e agora sinto que descobri todo o teu tão-desejado sentido.
por isso mente novamente; mente à tua vontade para o ar,
e vagueia pela secura das ruínas do teu deserto da razão.
sou apenas um mero déjà vú que olha para ti agora,
no momento em que te escondes à vista de todos,
e que finges sentir mais uma vez, só porque te dizem que é o natural:
mas bem-lá-dentro sabes nunca o hás-de conseguir,
sabes melhor que ninguém que teu teatro pouco ou nada tem de factual.

domingo, 27 de abril de 2014

tecido(s).

vejo a tua alma
na luz morta da sombra do dia
a pairar sobre teu corpo despido,
que ferve-quente de ousadia.
sofres entre gemidos
quando procuras algo bem-dentro de ti.
e é neste desabrolhar viçoso
que erradicas toda a melancolia.


sem demora,
sucumbes novamente à posição ingrata.
ficas repleta de esplendor
com toda esta sensação ilusória.
e quando o oceano escorre forte a jusante
todo o universo distende:
este chicote oferece mais que simples dor,
é a outra margem da ponte-da-memória.
nesta efémera magia do momento
a maresia torna-se fumo de baunilha-em-incenso
em que todas as lágrimas secam,
simplesmente porque perdem o alento.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

nota.

sonho em pensar sentir,
em semear uma vida-em-rosa idílica.
sonho em sonhar,
dormir e não acordar.
sem tentar, somente quero escapar
e encontrar-me na saída.

em pequeno eu era belo,
tão singelo e verdadeiro.
não me faltavam as palavras,
mas morria de tristeza.
tinha em mim toda a potencia,
mas o infinito é traiçoeiro.

eu sou uma miragem.

dia-após-dia, ainda tento encontrar
o meu caminho de volta.
de volta para o nada, a minha casa.
o caminho faz-se ao deambular.
como todos, como sempre.
sem sentido.
ao elevar-me agora através do ar,
recomeço.

e nada mais resta para contar.

sábado, 19 de abril de 2014

fome.

O brilho matutino desperta o azul cobalto
do meu cigarro quase esquecido.
agora reencontrado,
imerso em memórias de brilhantes vitórias,
muito meio adormecido.

tudo é uma noite em branco
que se estende por mais um dia em cinzento.
acordado:
sou apenas uma balança com fome de ouro,
em mero acaso do pensamento.